A circulação de presentes na cúria pontifícia
as relíquias e a gramática do sagrado nas relações com o patrício Dynamius e o rei Childeberto II (c. 595)
Palavras-chave:
Gregório Magno, História Conectada, relíquiasResumo
Este artigo analisa a circulação de relíquias promovida pelo papa Gregório Magno (590–604) como mecanismo de construção de alianças e produção de autoridade entre as elites da Gália merovíngia. Tomando como estudo de caso as relações estabelecidas com o patrício Dynamius e o rei Childeberto II, investiga-se de que modo o carisma da Sé Romana, fundamentado na autoridade petrina, era mobilizado por meio do envio de objetos sagrados. Propõe-se o conceito de gramática do sagrado para designar o conjunto de regras, classificações e práticas que organizavam a produção, a circulação e o reconhecimento dos bens simbólicos no interior de uma ordem do sagrado compartilhada pelas elites cristãs da Antiguidade Tardia. Com base na análise das cartas do Registrum epistolarum e em diálogo com as contribuições de Max Weber, Marcel Mauss e Pierre Bourdieu, argumenta-se que as relíquias não constituíam apenas instrumentos de devoção ou recursos diplomáticos, mas mecanismos de conversão do carisma petrino em reconhecimento social, legitimidade política e capital simbólico. Sustenta-se ainda que a economia da dádiva gregoriana operava segundo uma lógica de benefício recíproco e assimétrico, na qual diferentes agentes acumulavam prestígio sem que o ganho de um implicasse necessariamente a perda do outro. Conclui-se que a gramática do sagrado permitia à Sé Romana transformar objetos materiais em vínculos duradouros de autoridade, contribuindo para a consolidação de sua posição como polo de legitimação no Ocidente cristão.
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